Objecto Quase

By José Saramago

"""O ditador caiu da cadeira, os árabes deixaram de vender petróleo, o morto é o melhor amigo do vivo, as coisas nunca são o que parecem, quando vires um centauro acredita nos teus olhos, se uma rã escarnecer de ti atravessa o rio. TYudo são objectos quase"", estes são, para José Saramago, os itens principais por onde circulation este conjunto de contos que constituem Objecto Quase. Um deles, ""Embargo"" foi recentemente passado ao cinema por António Ferreira."

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A substituição dos funcionários fazia-se com brevidade, mas sempre à porta fechada. — Vem atrasado. — Desconfio que sim. Desculpe. — Passam quinze minutos da hora. Vou ter de participar. — Com certeza. O meu relógio parou. Foi por causa dele. Mas o que é estranho é ele continuar a trabalhar. — Continua a trabalhar? — Não acredita? Ora veja. Olharam os dois o relógio. — É realmente estranho. — Repare nos ponteiros. Não se mexem. Mas ouve-se o tiquetaque. — Sim, ouve-se. Não participarei o atraso, mas acho que deve informar superiormente o que acontece com o seu relógio.

No entanto, tratava-se de um móvel de inside, ao passo que a porta period já parte do edifício, senão a mais importante dele. Afinal, é a porta que transforma um espaço apenas limitado num espaço fechado. O governo (g) acabara por nomear uma comissão encarregada de estudar os acontecimentos e propor medidas. O melhor equipamento de computação fora posto às ordens desse grupo de peritos, que incluía, além de especialistas de electrónica, as melhores autoridades nos campos da sociologia, da psicologia e da anatomia, indispensáveis nestes casos.

O melhor seria desistir por agora de clientes, não pensar neles durante o resto do dia e ficar no escritório. Sentia-se inquieto. Em redor de si, as estruturas do carro vibravam profundamente, não à superfície mas no inside dos aços, e o motor trabalhava com aquele rumor inaudível de pulmões enchendo e esvaziando, enchendo e esvaziando. Ao princípio, sem saber porquê, deu por que estava a traçar mentalmente um itinerário que o afastasse doutras bombas de gasolina, e quando percebeu o que fazia assustou-se, temeu-se de não estar bom da cabeça.

Tal como esperava, conhecia todos os mortos: eram alguns dos seus vizinhos do prédio. Preferiram não sair de casa e agora estavam mortos. Nus. O funcionário pôs a mão sobre o peito duma mulher: ainda estava tépido. O desaparecimento dera-se, provavelmente, quando ele chegara à rua. Em silêncio, ou apenas entre rangidos e estalos, como os ouvira por toda a parte enquanto estivera em casa. Se não se tivesse demorado a ouvir o sargento, se não tivesse ficado depois a conversar, talvez ali houvesse mais um corpo, o seu.

Vá-se lá embora. No outro lado da praça havia algumas luzes. Hesitou. Seguir para lá, com risco de encontrar a todo o momento pessoas que o obrigassem a mostrar a palma da mão? Estremeceu de dor, de medo, de angústia. A ferida já estava maior. Que fazer, então? Deixar-se andar pelo escuro, como tantos outros, às apalpadelas, aos encontrões? Ou voltar para casa? Perdera o entusiasmo de caçador cívico com que saíra de manhã. Aparecesse o que aparecesse, se é que seria possível ver alguma coisa no meio da escuridão, não interviria, não chamaria ninguém para testemunhar ou ajudar.

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